Évora é das
mais raras cidades que manteve até à actualidade a maior parte da sua estrutura urbana
herdada dos séculos anteriores.
As inevitáveis alterações, decorrentes das ideias oitocentistas, incidiram em zonas bem
delimitadas da cidade intramuros, com a demolição, no todo ou em parte, de várias casas
religiosas votadas ao abandono e à consequente ruína. Os Conventos de S. Domingos e do
Paraíso deram lugar a espaços abertos centrais, posteriormente ajardinados. O Convento
de S. Francisco proporcionou todo um novo quarteirão oitocentista e disponibilizou o
espaço para o novo mercado da cidade. O Convento do Salvador foi parcialmente demolido,
enquanto que os outros foram reaproveitados para novas funções.
Ao contrário do acontecido com as casas religiosas, a estrutura militar defensiva da
cidade, com todas as suas muralhas, torres e fossos medievais, foi preservada, sendo
mantida sob tutela do Ministério da Guerra, o que impediu iniciativas locais nefastas,
até que em 1926 foi classificada monumento nacional. No entanto, do "progressismo
oitocentista" apenas foi salva a Porta de Avis, sendo as que ainda subsistiam
demolidas para responder a melhor facilidade de trânsito e à nova dinâmica de expansão
urbana que a inauguração da estação do caminho de ferro para o Barreiro suscitara a
partir de 1860. No início do presente século outras tentativas de demolição das
muralhas, visando especialmente o troço norte, entre a Porta da Lagoa e a Porta de Avis,
foram refreadas, graças a novas gestões camarárias entretanto surgidas e a uma profunda
consciencialização da população quanto aos valores patrimoniais existentes na cidade.
As obras públicas levadas a cabo na cidade, durante este período, foram modestas. Mas
duas terão que ser destacadas. A primeira refere-se às repetidas reparações a que o
aqueduto quinhentista obrigou, face aos consumos exigidos pelo aumento da população e à
ocorrência de estios rigorosos que tornaram o fornecimento de água à cidade um dos
problemas mais graves e cuja solução só veio a ocorrer já no presente século. A outra
obra relevante foi a construção da estrada de circunvalação às muralhas, transformada
posteriormente em avenida. Este anel viário, conjugado com a existência de propriedades
adjacentes de grandes dimensões, teve dois efeitos principais: por um lado dificultou o
crescimento contínuo da cidade para fora das muralhas; mas, em contrapartida, foi
preservado em grande parte o ancestral espaço adjacente ao exterior das muralhas -o
Rossio de S. Bráz, digno representante de um modelo de espaço urbanístico das cidades
portuguesas e, igualmente, foi realçada a imagem simbólica da cidade, de incontestável
valor no contexto do urbanismo mundial.
Até finais do século XIX a cidade manteve-se como um todo individualizado. O crescimento
da população levou à densificação da ocupação, sem alterações significativas na
estrutura viária. Os novos edifícios surgidos sobretudo nas ruas principais, procuram um
embelezamento das fachadas mediante a regularização e simetria de distribuição dos
vãos de portas e janelas, encobrimento de beirados e utilização de guardas de varanda
em ferro fundido; as molduras de pedra passaram com mais frequência a ser substituídas
por ressaltos do paramento, pintados nas cores cinza ou ocre, com esgrafitos e estuques de
desenhos cuidados, como é possível observarem-se na Praça do Giraldo ou na Praça do
Sertório. Em ruas secundárias ainda se encontram muitos edifícios de arquitectura
vernácula, de um dos dois pisos, com reduzidos vãos, beirados à vista e chaminé
frontal bastante evidenciada. As cores das paredes são obrigatoriamente em branco com
pequenas zonas de cor diferente. Regras simples que proporcionam uma grande unidade e
variedade formal. |