Um centro
regional no fim da Idade Média tornou-se em poucos anos pela acção de seus bispos e a
participação popular no esforço da expansão, num dos maiores focos culturais e
artísticos do século XVI. Évora condensa 1 século de história de Portugal e chegou a
ser vista como a capital do país. Se já D. João II dera mostras de favor régio, com a
fundação de S. Francisco, as épocas seguintes confirmaram essa preferência que
dera uma clara opção estratégica imprimindo à cidade a feição viril de lugar
do poder, ainda bem patente nos seus monumentos e na própria paisagem urbana.
Da Évora manuelina destaca-se a acção de D. Manuel (1495-1521) de atrair
famílias das mais alta nobreza, em vez de na sua Beja de origem, de cujos palácios
(Cadaval, Castro, Vimioso, Gama, Cordovil, Garcia de Resende, etc.) restam ecos dum estilo
de vida mais civilizado e elegante, o luso-mourisco ou "mudéjar", e o panteão
aristocrático do convento jerónimo do Espinheiro. O Rei reservou-se o Castelo Novo
(1518), já de inspiração renascentista, e atraiu artistas e obras, hoje no Museu
Distrital e Sé.
Mas seria D. João III (1521-57), com o mecenato guiado pelo célebre humanista
André de Resende, quem deu o impulso decisivo à renovação da pseudo-colónia romana.
Valorizada com obras públicas dignas duma capital, qual Nova Romana, a urbe viu as
primeiras construções renascentistas de iniciativa oficial, em estilo ainda inicial (uma
delas destinada, em vão, a panteão régio) e acolheu uma corte de poetas latinos e
artistas de vanguarda, como o escultor Nicolau Chanterene e o teórico Francisco de
Holanda. Desse clima estimulante emergiu o Alto Renascimento, na pintura de Gregório
Lopes e Diogo de Contreiras (1550-60: frescos épicos no Paço Ducal de Vila Viçosa) e
uma directa influência italiana na arquitectura, em audaciosas composições
geometrizantes como as de Manuel Pires.
Desde 1537, porém, a corte havia abandonado a cidade, deixando-a entregue ao poder
crescente dos arcebispos e da Contra-Reforma. O Cardeal Infante D. Henrique funda uma
Universidade para os Jesuítas (1559, por M. Pires e Afonso Álvares), bem como o anexo
Colégio e Igreja do espírito santo (1566), as quais reagem contra o livre Humanismo
promovendo um gosto despojado e liso ("estilo chão") que combina uma alta
sofisticação intelectual com o rigor do dogma. Dessa nova conjuntura, em que a Filosofia
neo-medieval foi rainha e a arte reduzida a instrumento, resta um conjunto notável de
obras de arte que fazem de Évora a verdadeira "capital do estilo chão": do
polo colegial à urbanização do convento de Stª Helena do Monte Calvário (A. Álvares
e Mateus Neto, 1570) e à Praça do Giraldo, frente à matriz de Santo Antão (M. Pires,
1557), onde Afonso Álvares demoliu sem mercê um belo pórtico romano para desafogar a
fachada e a fonte (1570).
Foi o virar da página para um Classicismo seco, duro e austero que,
no entanto, não impediu as liberdades maneiristas como frescos profanos e até eróticos
(Palácio de S. Miguel, pelo flamengo Francisco de Campos, 1578) ou as iniciativas
europeístas de Filipe II (Cartuxa, pelo italiano Pe. Casale, 1590) significando
uma mudança de rumo, patente no escurialesco convento carmelita de Nª Sr.ª dos
Remédios (Francisco de Mora, 1605), que o domínio espanhol só faria acentuar. |