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A um dos seus mais ilustres filhos, o humanista eborense, André de Resende (1500-1573), deve a cidade de Évora as primeiras especulações sobre as suas origens. Contudo, a sua vasta obra historiográfica de cariz apologético, bem ao estilo da época, acabou por contribuir para o nascimento de mitos e lendas que ainda hoje se projectam na tradição e no imaginário local. Orgulhoso da importância do passado romano da cidade, materializado em vestígios arquitectónicos e epigráficos que como antiquarista registou ou coleccionou, a Resende se deve a paternidade da lenda que desde o Renascimento associa Évora e os seus mais antigos monumentos a Sertório, general romano dissidente que, aliado aos Lusitanos, ousou desafiar na Península Ibérica o poder de Roma.

São até hoje desconhecidos na área urbana de Évora, mesmo na "acrópole" que corresponde ao seu núcleo original, vestígios arqueológicos anteriores à "romanização" embora vários indícios, entre eles o próprio nome de "EBORA" e a sua localização estratégica, fundamentam a hipótese de uma origem mais antiga. A sua integração na estrutura administrativa romana, nomeadamente a elevação à categoria de "municipium" sob o nome de Ebora Liberalitas Julia, só correu com a expedição de Júlio César à Península Ibérica. Após dois séculos de guerras, a Pax Romana criou criou finalmente as condições que permitiram ao Imperador Augusto lançar a grande reforma administrativa da Ibéria. Foi certamente neste contexto que se traçaram as traves mestras do urbanismo de Évora romana, então integrada na província da Lusitânia, e se fundaram os seus principais edifícios públicos que, no entanto, com excepção do Templo Imperial e das Termas Públicas, poucos vestígios se conservaram até hoje. Por outro lado, nas proximidades da cidade, nomeadamente na Tourega, junto à antiga estrada romana para Salacia (Alcácer do Sal) importantes ruínas de uma villa, confirmam a existência de uma classe senhorial ligada à exploração da terra. No século III a instabilidade do Império e as primeiras invasões bárbaras conduzem à fortificação das cidades e Évora, que recebe então a sua primeira muralha, a chamada "cerca velha", não foi excepção. Com a posterior desintegração do Império, assolado por novas vagas de invasores germânicos, a cidade parece entrar num longo período de letargia, sendo raros os vestígios arqueológicos que documentem a época do domínio visigótico. A partir da época islâmica, mais uma vez beneficiando da sua estratégica localização. Évora recupera importância económica e política. As suas muralhas são comprovadamente reconstruídas e sobre as ruínas dos edifícios públicos da velha acrópole romana instalam-se o "alcácer" e a "mesquita". A malha urbana densifica-se, escondendo a sua matriz ortogonal romana para se tornar convergente ou radial, em função de novas formas orgânicas de habitar, características que ainda hoje conserva no seu centro histórico. Com a conquista e integração definitiva no reino de Portugal (1165), a nova Catedral substitui a Mesquita e o Castelo, que integrava já as ruínas do Templo Romano, Évora conhece então novos senhores.

 

 

1 - Templo

Situado no topo Norte do "forum", a principal praça pública da cidade romana, o templo popularmente denominado "de Diana", é uma construção do século I e, pelas suas grandes dimensões (24,60x14,19m) e localização, deve ter sido dedicado ao culto do Imperador, possivelmente ao próprio Augusto. A sua situação actual, após a remoção dos acrescentos medievais que o descaracterizavam, é obra do final do século XIX, que pôs à vista parte da sua colunata de granito e capitéis coríntios em mármore. Escavações recentes confirmam que parte do Templo era enquadrado por tanques, criando um raro efeito de espelho de água, e que o forum seria rodeado por uma monumental galeria porticada.

 

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Mão com "patera" (Museu de Évora)

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Lápide com inscrição árabe (Museu de Évora)

 

2 - Museu

O Museu de Évora, instalado no antigo Paço Episcopal, está em grande parte construído sobre o Forum Romano, o qual seria rematado a Sul por grandes edifícios públicos situados na plataforma onde hoje se eleva a Catedral. No Museu conservam-se alguns vestígios que documentam a história antiga da cidade, nomeadamente:

  • elementos escultóricos recolhidos nas escavações do Templo realizadas no Século XIX;

  • restos de um fisco com "bucrâneos e pateras" proveniente do Templo ou desaparecido "Arco Triunfal" da Praça do Giraldo;

  • estátua de um "sileno" descoberto no Convento dos Loios e que pode documentar a existência de um Teatro ainda não localizado;

  • lápide árabe com inscrição comemorativa de reconstrução de Évora no início do Século X.

 

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Arco de D. Isabel

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Troço da Muralha romana - Alcárcova de Cima

 

3 - Muralhas ("Cerca Velha")

Parcialmente camuflada pelo urbanismo medieval e renascentista, Évora conserva importantes vestígios da sua mais antiga estrutura amuralhada, a chamada "Cerca Velha". Embora as suas origens devam remontar ao Século III, época em que muitas cidades peninsulares se fortificam, grande parte da estrutura que chegou até nós é resultado de obras posteriores. Está particularmente bem documentada a sua reconstrução no início do Século X, em plena época islâmica. Merecem especial atenção o "arco de D. Isabel" assinalando uma das antigas portas da muralha romana, e o troço da Alcárcova de Cima, integrado na Casa de Burgos, onde é visível a sobreposição da muralha a casas romanas datadas do Século I.

 

4 - Termas

A tradição situava um lendário "Palácio de Sertório" na Praça onde hoje se situam os Paços do Concelho. Talvez ajudando a explicar as origens de tal mito, escavações recentes realizadas no interior do edifício camarário vieram revelar a existência de vestígios ainda significativos de um grande balneário, certamente as Termas Públicas da cidade romana. Encontram-se particularmente bem conservadas as instalações do "Laconicum", sala aquecida, integrando um grande tanque circular e destinado a banhos de vapor. A existência das termas e do espelho de água do Templo, levantam questões sobre o abastecimento de água à cidade romana, colocando-lhe a hipótese da existência de um grande aqueduto romano antecessor do Aqueduto da Água de Prata, obra do final do Século XVI.

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5 - Praça do Giraldo

Apesar de destruído em 1570, vale a pena recordar a existência de um arco romano, descrito em fontes antigas como tendo três arcos triunfais, colunas, nichos e estátuas. Situava-se frente à actual Igreja de Santo Antão, no topo Norte da Praça do Giraldo e poderia estar relacionado com o traçado do "decumano", a rua que no urbanismo romano se desenvolvia perpendicularmente ao "forum". Segundo alguns autores, o friso com bucrâneos e pateras que se conserva no Museu, mas que durante vários séculos esteve incrustado nas paredes do antigo edifício da Câmara Municipal (onde se situa o Banco de Portugal), poderia provir do desaparecido "arco triunfal". De igual modo a tradição associa a este monumento as duas estátuas da Fonte dos Leões.

 

6 - Villa Romana da Tourega

A Villa Romana da Tourega, situada no território de Ebora Liberalitas Julia, ocuparia no Séc. IV uma área de cerca de 500 m2. Deste conjunto arqueológico faz parte um amplo complexo termal, indicando pela área ocupada que se trataria de termas duplas (para homens e mulheres), com salas e tanques de banhos frios e quentes. Os diversos materiais arqueológicos encontrados indicam a ocupação desta villa desde meados do século I até finais do século IV d.C.

 

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Pormenores do Friso dos butânicos existente no Museu de Évora

 

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Última Actualização30-03-2000

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